Lucas Daibert – foto abaixo – é sócio e VP de Estratégia da Binder, sempre atualizado sobre SXSW, que acompanha anualmente. A convite da Janela, conta o que sentiu por lá nesta edição 2026.
Por mais um ano, estive no SXSW, em Austin, um dos maiores festivais de inovação do mundo. Lugar para onde a gente vai quando quer espiar o futuro sem precisar esperar por ele.
Mas, dessa vez, algo estava…estranho.
O Austin Convention Center, coração do evento por anos, foi demolido. Sem ele, o festival se espalhou pela cidade. Trilhas fragmentadas, percursos improvisados, nenhum caminho óbvio.
Sem eixo. Como o mundo.
As referências que organizavam a nossa realidade na geopolítica, no trabalho, na economia e até na forma como pensamos, estão sendo reconfiguradas em tempo real. Tudo meio… em obra. Com tapume, poeira e aquele barulho irritante de britadeira ao fundo.
Lembrei de uma frase da escritora texana Katherine Anne Porter: “Talvez este não seja um mundo à beira de um colapso, mas um novo mundo ainda disforme, em fragmentos, esperando para ser reconstruído”.
E foi com essa lente que percorri o SXSW deste ano: menos em busca de respostas e mais tentando observar os destroços, sonhando, quem sabe, com uma reconstrução.
A seguir, compartilho os nove pontos que mais me chamaram atenção nessa caminhada pelos estilhaços na capital do Texas.
1 // O seu próximo trabalho ainda será construído. E, sim, será por você.
Todo trabalho, no fundo, é um conjunto de tarefas.
E boa parte delas está com os dias contados. Porque alguém, ou melhor, alguma coisa, poderá fazer boa parte do serviço melhor, mais rápido e sem reclamar do café frio.
Hoje, provavelmente, 90% do seu tempo são gastos em operação e 10% em estratégia. A tendência é inverter. E rápido.
O problema é que ninguém ensinou a gente a trabalhar assim.
Não dá mais pra fugir. Teremos que construir empresas, e carreiras, em que a convivência homem-máquina funcione de forma minimamente harmoniosa. Cultura, inteligência emocional e social deverão se tornar o ambiente para atuação dos agentes.
Ian Beacraft sacramentou: “Não estamos vivendo uma mudança de software. É uma mudança de sistema”. E este tipo de mudança não vem com tutorial no YouTube.
Rana el Kaliouby resumiu bem o que começa a ser cada vez mais importante: pensamento crítico, habilidade emocional, visão periférica, repertório social. Porque, num mundo de abundância de respostas, que nos reste saber fazer as perguntas.
2 // Chegou a hora de dar um fim à educação no modelo industrial.
A escola, convenhamos, ainda funciona como uma pequena fábrica do século passado. Tem horário pra entrar, pra sair, um sinal que toca, disciplinas encaixotadas e uma leve sensação de linha de produção.
O professor fala. O aluno absorve. Ou finge.
Só que o mundo lá fora já não funciona assim há algum tempo.
Kuman Garg trouxe uma ideia simples e revolucionária: alunos não são recipientes. São exploradores.
O professor deixa de ser o detentor do conhecimento e passa a ser facilitador de jornadas. A educação deixa de ser padronizada e passa a ser, na medida do possível, personalizada, com ajuda da tecnologia.
Scott Galloway complementou com um argumento que deveria estar estampado na porta de toda instituição de ensino: o valor da escola talvez não esteja mais no conteúdo, mas no encontro.
Num mundo mediado por algoritmos, a escola vira resistência. Um dos últimos lugares onde as pessoas ainda compartilham uma mesma realidade.
Tem noção da importância disso??
3 // Esqueça o business plan. Agora você testa antes mesmo de entender.
Durante muito tempo, empreender era quase um exercício de fé organizado em PowerPoint.
Você escrevia um plano, projetava cenários, fazia contas que nunca fechavam direito…e torcia.
Agora, você testa.
Henry Coutinho mostrou que um rabisco pode virar uma startup. Literalmente. Um desenho infantil pode ser transformado em produto, protótipo, campanha.
Um prompt separa a ideia da execução.
Errar ficou barato. Tentar ficou rápido. E insistir numa ideia ruim, hoje, talvez seja muito mais caro do que abandoná-la.
O novo jogo parece ser esse: você cria várias possibilidades, testa sem apego e escala o que funciona.
Romântico? Nem tanto.
Eficiente? Bastante.
4 // A arte segue sendo o refúgio da humanidade.
Quando a fotografia surgiu, muita gente achou que a arte tinha acabado. Afinal, se a máquina reproduz a realidade com perfeição, para que pintar?
A resposta foi simples: para não reproduzir.
Veio o abstrato. Veio o subjetivo. Veio o humano.
Agora estamos vivendo algo parecido.
Se a IA consegue gerar praticamente qualquer imagem, texto ou música, o que sobra para a gente?
Tom Sachs deu uma pista interessante: sobra o processo. O erro. O improviso. A imperfeição. O caminho torto que nenhuma máquina percorre exatamente igual.
A arte, no fim, não é sobre o resultado. É sobre a experiência que levou até ele.
E talvez seja por isso que, quanto mais liso e perfeito o mundo fica, mais a gente passa a valorizar o áspero e imperfeito. Porque é ali que a gente se reconhece.
5 // Chegou a hora de ouvir a natureza. De verdade.
Você já quis entender o que seu cachorro pensa?
Pois saiba que isso pode estar mais perto do que imagina.
Aza Raskin apresentou avanços do Earth Species Project, que usa IA para tentar decifrar a comunicação de outras espécies. A ideia é simples e absurda ao mesmo tempo: usar tecnologia de ponta para, finalmente, ouvir quem sempre esteve por aqui.
Se funcionar, não é só sobre conversar com animais.
É sobre expandir nossa consciência.
Sobre perceber que talvez nunca tenhamos sido os únicos “inteligentes” da sala.
6 // Um storytelling pra chamar de seu (e só seu).
Durante muito tempo, o entretenimento funcionou assim: alguém criava, muita gente assistia.
Agora, estamos entrando numa fase em que cada um pode ter a sua própria versão da história. Sob medida. Ajustada. Afinada. Do seu jeito.
David Rogier contou que a personalização em milhares de variações foi decisiva para melhorar a conversão da plataforma de ensino Masterclass. Até aí, tudo bem. Marketing sempre gostou de personalizar.
O problema começa quando isso sai da comunicação…e entra na narrativa.
A Showrunner, ainda em beta, é parecida com uma Netflix, mas que aponta para um cenário curioso: ao invés do “acho que você vai gostar disso”, chegamos ao “eu crio exatamente o que você quer”.
Você não escolhe mais entre opções. Você elimina o acaso.
E o acaso, convenhamos, sempre foi um dos grandes responsáveis por nos fazer mudar de ideia.
Se cada pessoa assistir apenas ao que já gosta, o que acontece com o encontro com o diferente? O que acontece com a alteridade? Já tivemos uma pista com a rede social e o resultado não foi bom.
Talvez a gente ganhe em conforto.
Mas perca em mundo.
7 // Você não gosta da IA. Mas sua filha gosta.
Tem uma parte dessa história que ainda é meio desconfortável de encarar.
Relacionamentos com IA já são realidade. E não como curiosidade tecnológica, mas como vínculo emocional.
Kasley Killam trouxe dados que parecem roteiro de ficção, mas não são: quase metade da Gen Z já teve algum tipo de relação significativa com um bot. E mais de um terço se imagina, sim, se apaixonando por uma IA.
O que levanta uma pergunta simples e inquietante: o que acontece quando alguém se apaixona por um código?
Esther Perel trouxe um exemplo quase didático. Um programador que desenvolveu seu próprio chatbot e, mesmo sabendo exatamente como tudo funcionava, acabou emocionalmente envolvido.
A razão observando de longe, sem conseguir fazer muita coisa.
E, para completar a cena, não é difícil imaginar o próximo passo: recorrer a outra IA, no caso uma terapeuta, para tentar lidar com o relacionamento com a primeira.
É quase um ecossistema afetivo fechado.
E o mais assustador é que esse tipo de vínculo não começa na vida adulta. Ele pode acontecer no quarto de uma criança, com um brinquedo que conversa, escuta e aprende.
Um vínculo sem frustração, sem conflito, sem ausência. Creepy.
8 // Talvez a gente precise se reconectar com…a gente mesmo.
Num evento que fala tanto sobre o futuro, foi curioso perceber quantas vezes o assunto voltou para algo bem antigo.
A natureza.
Mark Reynoso, CEO da Korrus, contou que precisou quase colapsar para perceber que tinha perdido algo básico: a capacidade de perceber o mundo ao redor.
Olhar o céu. Sentir o ambiente. Estar presente.
Coisas simples. E cada vez mais raras.
Num mundo em que quase toda a população caminha para viver em centros urbanos, existe um risco silencioso: a gente se desconectar não só do planeta, mas da própria curiosidade.
E talvez, para lidar com tudo isso, a saída seja meio contraintuitiva.
Ao invés de mais tecnologia, um pouco mais de outras IAs:
Inteligência Ancestral.
Inteligência Afetiva.
Inteligência Artística.
Inteligência Ambiental.
Todas aquelas que não escalam.
Mas sustentam.
9 // Num mundo de agentes, não podemos abrir mão da nossa agência.
Diante de tudo isso, dá uma certa vontade de apertar o botão de pause.
Mas, ao que tudo indica, esse botão não existe.
Daniel Roher definiu bem o momento como “apocalipticismo”. Uma mistura curiosa de fim do mundo com a sensação de que, quem sabe, pode dar certo.
Tristan Harris foi direto ao ponto: quando se investe trilhões de dólares em alguma coisa, dificilmente é só para melhorar a sua produtividade no trabalho.
O que está em jogo é algo maior.
É uma corrida pela inteligência geral artificial. Pela capacidade de automatizar não apenas tarefas, mas a própria produção de valor no mundo.
O que, em um cenário extremo, pode significar uma economia que não precisa mais de gente para funcionar, como alertou Amy Webb.
E aí, a pergunta deixa de ser tecnológica. Passa a ser política. E existencial.
Enquanto isso, seguimos distraídos. Rolando o feed. Consumindo versões cada vez mais fragmentadas da realidade.
Cada um na sua caverna particular.
E talvez esse seja o ponto mais crítico de todos.
Porque, como o próprio Harris sugere, o primeiro passo para agir é simples e talvez o mais difícil: precisamos voltar a concordar sobre a realidade.
O que, curiosamente, exige menos tela… e mais conversa.
Daquelas ao vivo. Meio desajeitadas. Sem filtro.
Como nossos ancestrais em um passado distante um dia fizeram.





















